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Pierluigi Piazzi: "Ler é musculação para o cérebro"

Pouco mais de 320 brasileiros fazem parte de uma organização que reúne apenas pessoas de alto Q.I. Ela é voltada exclusivamente à identificação e cultivo da inteligência humana, para o benefício da humanidade, e à pesquisa sobre a natureza, características e usos da inteligência. A Mensa tem mais de 100 mil membros, em mais de 100 países. Não há nenhum tipo de distinção ou restrição para novos sócios, a não ser o alto Q.I. Dela fazem parte estudantes de 16 anos, engenheiros, médicos, educadores, advogados, analistas de sistemas e até músicos, como o vocalista do Ultraje a Rigor, Roger. O professor Pierluigi Piazzi, que faleceu em 2015, era formado em Física e Química, e se dedicava também, com muito humor mas de forma séria e incisiva, ao estudo da Inteligência. Em 2008 ele me concedeu esta entrevista que acho uma das mais interessantes que já fiz.

É possível definir inteligência? A primeira grande dificuldade é exatamente essa. Mas, ao contrário do que muita gente imagina, o teste de Q.I. não mede a inteligência, mede o Quociente de Inteligência. Ou seja, a faceta mais estrutural, o alicerce, que é, simplesmente, saber descobrir regras. Você pergunta para o cara: ‘‘1,2,3,4. O que vem a seguir?’’ Você não diz nada sobre sucessão dos números inteiros, não explicita nada. Se o cara responder 5, demonstra que ele apreendeu que havia uma sequência. Aí, você aumenta a dificuldade: ‘‘1,3,5,7. O que vem a seguir?’’. E o cara diz 9. Às vezes, nem sabe que seguiu a sequência dos números ímpares, mas, instintivamente, descobriu uma regra. Você pode complicar a coisa cada vez mais. E quanto mais ele souber resolver questões cada vez mais complicadas, com regras cada vez mais complexas, mais inteligente ele é. É isso que o teste de Q.I. detecta: a habilidade que o cidadão tem de descobrir regras.

Essa capacidade vem de berço ou é resultado de fatores externos? Existem estudos que mostram que filhos de pais inteligentes costumam ser mais inteligentes do que a média. E outros estudos provam que isso é verdade mesmo que os filhos sejam adotivos. As crianças realmente nascem com potenciais diferentes, porque isso depende de uma série de fatores. Você pode identificar gente com potencial elevadíssimo que, por viver em um meio cultural muito pobre, jamais chega a desenvolver esse potencial. Outros, que não nascem tão aptos, mas vivem em um ambiente extremamente estimulante, acabam por ultrapassar os primeiros. Há uma grande verdade: inteligência se aprende. O pontapé inicial é dado pela genética, mas isso não garante muita coisa.

Existem características que os pais podem identificar nas crianças que indiquem um alto Quociente de Inteligência? Dá para descobrir isso facilmente. É só ver o quanto a criança é precoce, o quanto ela age e reage de forma mais madura do que sua idade exige, ou quanto seu raciocínio, sua capacidade de se adaptar a novas situações é rápida. Detalhe: quando crescer, essa criança não irá necessariamente se tornar um adulto mais inteligente do que a média. Ela simplesmente tem uma curva de desenvolvimento mental mais acentuada. É claro que, se estiver em um meio cultural estimulante, estará partindo com uma vantagem muito grande. Mas é relativo: Einstein, por exemplo, não nasceu com essa facilidade. Ele tinha sérios problemas, só aprendeu a falar aos 4 anos, ia muito mal na escola.

Como Einstein, quase todas as crianças muito inteligentes são vistas como problemáticas. Por quê? Justamente porque são anormais e, como todo anormal, são excepcionais. Existe um padrão de comportamento entre as crianças. A que é muito inteligente foge desse padrão e, assim, todas as regras que eram válidas para conseguir certos efeitos, no caso dela deixam de ser. Então, a criança realmente se torna um problema. O pior de tudo é que o sistema escolar parte do princípio de que a atividade escolar é coletiva. O que acaba acontecendo? Dentro de uma classe cheia de crianças com desenvolvimento normal, essa criança certamente vai criar problemas. E depois, quando jovem, também. O que faz esse adolescente? O que todo mundo demora 50 minutos para aprender, ele aprende em 5, e passa os outros 45 enchendo o saco da humanidade. Pode se tornar, até, alguém muito agressivo. E, claro, hostilizado pelos professores, o que só piora a situação.

E qual o papel dos pais? Eles exercem papel fundamental no desenvolvimento da inteligência dos filhos? Como podem estimulá-los? Os pais exercem, como muitos devem desconfiar, um papel fundamental. Mas há um problema: essa ajuda é tanto mais eficaz quanto mais precoce e contínua. Uma revista francesa foi processada pela associação dos astrólogos porque publicou uma matéria dizendo que astrologia não servia para nada. Para se defender, fez uma pesquisa com milhares de pessoas e chegou à conclusão de que astrologia não tem, mesmo, influência nenhuma sobre absolutamente nada, a não ser em uma característica: as crianças nascidas sob os signos de Capricórnio, Aquário e Peixes têm Q.I. mais elevado. Foram então investigar o porquê e chegaram à conclusão de que quem nasce sob esses signos, por lá, nasce no inverno, época em que os pais saem menos de casa e na qual o nenê tem a presença dos pais durante mais tempo. Essa presença, mesmo numa idade tão tenra, é estimulante a ponto de determinar o nível de inteligência que ela terá no futuro. A criança tem que ser estimulada. Mas não superestimulada, porque senão vira uma neurótica.

Qual a melhor atitude para os pais que descobrem ter um superdotado em casa? O excesso de atividades não acaba prejudicando mais do que ajudando? Os pais confundem qualidade com quantidade. Entopem a criança de compromissos. É preciso que as atividades sejam estimulantes de verdade. Normalmente, uma criança inteligente é muito curiosa e procura coisas novas para aprender. Um exemplo de atividade boa: leitura. Criança inteligente tem que ser alimentada com muito mais livros. Mas é preciso tomar cuidado para não deixar de fornecer também atividades físicas. A chave do sucesso está no estímulo contínuo. É preciso inventar coisas, descobrir do que a criança gosta e explorar isso, colocar na aula de teatro, mandar fazer cursos diferentes.

Nesse cenário, a escola ajuda ou atrapalha? O método baseado na memorização não pode desestimular ou até diminuir o potencial de uma criança? A escola muitas vezes atrapalha. Na realidade, a única coisa que a escola deveria ensinar é Inteligência. Deveria haver uma única matéria na escola, chamada Inteligência. E essa inteligência deveria ser ensinada da seguinte forma: pegar uma criança e, gradualmente, transformá-la num autodidata. Isso funciona com qualquer criança, não só com as superdotadas. Imagine que monto uma escola voltada exclusivamente ao ensino das cores e contrato professores daltônicos. Como consigo que a escola ensine inteligência, se a maioria das pessoas que trabalham lá não está preparada para isso?

Os métodos de ensino nivelam as crianças? O que acontece é que a escola não só não reconhece a inteligência individual como chega a castrá-la. As mais inteligentes do que a média são reprimidas. Outra coisa a se comentar é justamente essa coisa de decoreba: as crianças armazenam informações sem o menor sentido, fora de contexto. Decoram, não raciocinam, não refletem e não aprendem a pensar por conta própria.

O senhor falou da leitura. Qual é a importância deste hábito? Existe um tipo de leitura melhor que os outros, ou seja, é preferível ler livros a jornais ou revistas? O melhor livro que o sujeito lê é o livro que fala sobre aquilo que ele gosta. Porque se ele lê o que gosta, lê muito e, neste caso, a quantidade conta tanto quanto a qualidade. Quando a criança lê muito, acaba criando em seu cérebro mecanismos de codificação e decodificação extremamente sofisticados. A tal ponto que, num dado momento, ela pode se permitir ler coisas mais áridas, mais complicadas, mais difíceis, e mesmo assim consegue absorver e entender o que está lendo. O conselho que dou é: ler muito. Mesmo que isso signifique, num primeiro momento, ler Júlia, Sabrina, Harry Potter, Agatha Christie.

A tecnologia atrapalha? A Internet, por exemplo, aumenta a capacidade de raciocínio ou só dá conhecimento vazio? As duas coisas. Na universidade há um monte de professores que dão aulas nos cursos de Ciências da Computação e Engenharia da Computação, que se formaram utilizando um computador que custava menos de US$ 100, o famoso TK-82. Era um computador que exigia que o sujeito fizesse seus próprios programas. Quando o Windows foi lançado, escrevi um artigo dizendo que a humanidade havia regredido ao tempo dos hieróglifos. Parou-se de escrever e voltou-se a usar figurinhas. Essa simplificação, cada vez maior, só torna o cérebro cada vez mais preguiçoso.

Mas aí não depende de como o computador é utilizado? Sim. Usada da maneira correta, a Internet é fantástica. Agora, se a criança entra na Internet para usar o bate-papo, para escrever errado de propósito, usando naum no lugar de não, para criar uma gíria própria e assim provar que é um adolescente modelo Malhação, a Internet ajuda, e muito, a diminuir o Q.I.

Isso também se aplica a outros meios? É claro. Videogames, por exemplo: há jogos em que o sujeito tem que ser inteligentíssimo e outros que são de uma idiotice total, em que a pessoa tem apenas que ter reflexos rápidos para matar a maior quantidade de inimigos.

Mas há quem defenda que os jogos de computador ajudam a estimular a rapidez de raciocínio e a capacidade de analisar inúmeras variáveis antes de tomar uma decisão… Concordo plenamente. O RPG é um exemplo. Há os que jogam de forma tão séria que precisam ler muito, absorver conhecimentos profundos de assuntos variados para se documentar a respeito do jogo. Neste caso, o RPG é utilíssimo. Outros entram no RPG como forma de fugir da realidade. Tudo depende, inclusive, da orientação da família. O cara diz: ‘‘Meu filho é muito esperto, fica horas na frente do computador’’. Aí, você vai ver e o moleque está há três meses paquerando uma tal de Flor do Mal… Aí não ajuda…

É possível que alguém que não recebeu os estímulos adequados na infância se desenvolva bastante depois de adulto? Sim, é possível, mas isso vai exigir um esforço cada vez maior. Quanto mais precocemente o estímulo vier, melhores os resultados. A faixa de alunos com a qual trabalho no cursinho é composta por jovens com o cérebro supostamente cristalizado, já que os recebo aos 16, 17, 18 anos. Muitos deles eu vejo que estão em situação intelectualmente catastrófica e, depois de 10 meses de alta motivação, o camarada entra no ITA, na USP. Isso mostra o quê? Que havia todo um potencial reprimido, não estimulado.

A inteligência da humanidade está aumentando ou diminuindo? Inteligência se aprende e também se desaprende. Aumenta ou diminui de acordo com os hábitos. Quanto mais tempo a pessoa passa em atividades estimulantes, melhor fica a sua capacidade de reflexão e raciocínio. Por outro lado, a maior parte das pessoas usa os poucos momentos de folga do trabalho para descansar também a cabeça, deixando que a tevê diga o que pensar e o que sentir. Assim, o cérebro se acostuma a ficar quietinho, sem incomodar.

A culpa é da televisão? A televisão fez a humanidade desaprender o Q.I. e é um dos fatores de desagregação mental. A humanidade tem ficado cada vez mais burra, principalmente porque é muito mais fácil ligar uma televisão do que ler um livro. Hoje, no Brasil, temos 82% de analfabetos funcionais. Gente que até sabe transformar letras em sons, mas certamente não em idéias.

Há como reverter essa tendência? Há necessidade urgente de que se criem instituições que cuidem dos excepcionais positivos. Dos negativos também, mas não só deles. Os excepcionais positivos não precisam ser marginalizados, colocados à parte. Têm que frequentar a própria idade cronológica, mas também atividades de qualidade, que façam com que se desenvolvam. E é preciso reformular todo o sistema educacional, para dar a mesma chance a todas as crianças.

Como se deu, no seu caso, a descoberta da inteligência acima da média? Eu diria que foi a partir da leitura, de muita leitura. Descobri que me dava muito bem, melhor do que meus amigos, em matérias como Latim e Matemática, mas nunca achei que tivesse nada de excepcional até fazer um teste de Q.I. e receber um resultado bem acima da média. Mas não me acho superior a ninguém, pelo contrário: prefiro achar que eu é que sou normal e que os que não chegaram a esse ponto é que são fora do comum.

Por quê? Porque todos poderiam ter chegado onde cheguei, mas é muito mais simples fingir que é inteligente do que realmente se dedicar para se tornar inteligente. Se as pessoas gastassem metade do tempo que gastam fingindo que são inteligentes trabalhando para se tornar realmente inteligentes, o mundo seria povoado por gênios.

A Mensa utiliza resultados de testes de Q.I. como forma de admissão, mas há os que dizem que há várias formas de inteligência e que os testes não conseguem contemplar todas. O que o sr. acha, por exemplo, do conceito de Inteligência Emocional? Considero Inteligência Emocional uma contradição, a mesma coisa que um triângulo quadrilátero. Se é inteligência, não é emocional, e, se é emoção, não é inteligência. O que o pessoal que defende essa tese confunde é o seguinte: existe um conceito, muito bem estabelecido, de Inteligências Múltiplas, dos vários módulos cognitivos. Existiriam sete ou até oito inteligências múltiplas independentes. Uma única destas inteligências é a conhecida como Interpessoal, que mede a capacidade que o sujeito tem de manipular e liderar outras pessoas. Mede o carisma, no fundo. É essa inteligência, que o pessoal chama de emocional, que, além de ser apenas um tipo, não tem nada a ver com emoções, mas com manipulação de emoções. A Mensa não mede nenhum desses vários tipos de inteligência, mede o que é subjacente a todas, que é o que falei no início: a habilidade para aprender regras, a capacidade da pessoa de compreender e se adaptar.

 

 

  • Publicado por: Gustavo Klein
  • Postado em: segunda-feira, 19 ago 2019 11:44

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